domingo, 14 de junho de 2009

Viver (na sua essência)

Ande ao léu, sem nada pra fazer, apenas pensando na vida. Siga por rumos antigos, invente novos caminhos, faça novas rotas e novos roteiros, vá pra novos lugares, visite velhos amigos, faça novas amizades, saia sem saber onde vai chegar, nem quando vai chegar, muito menos se vai chegar. Permita-se extravagâncias vez por outra, faça economias sempre que conseguir e puder. Entregue sorrisos verdadeiros sem esperar recompensas. Abrace verdadeiramente, com alma e vontade, aperte a mão olhando nos olhos, dê boas gargalhadas com os que lhe são caros, divirta-se com aqueles que se achegam sem pedir nada em troca, trabalhe com boa vontade, esmere-se em fazer tudo da melhor maneira, coma e beba com gosto, sentindo prazer. Escute a música que lhe agradar, cante o que tiver vontade. Dance como quiser, se vista como achar melhor, use óculos de sol se gostar, se não gostar não use. Coloque colares, joias, anéis, correntes, ou não coloque nada. Ostente chapéu, boné, boina, touca, ou mostre seu penteado, sua careca, ou ande escabelado, faça como achar melhor! Ligue pra um amigo que mora longe, mande um recado pra um vizinho, escreva uma carta (sim, carta, papel e caneta, bem do jeito antigo), ou não ligue pra ninguém, dê um beijo na sua mãe, no seu pai ou no (a) seu (sua) irmão (ã), aquela mesma com quem você discutiu ontem, trate com afeto os que te rodeiam, não dê a mínima pra quem só pensa em te ver pelas costas, faça pouco de quem quer puxar o teu tapete, ajude quem puder, mas ajude mesmo quem precisar de você ou de sua ajuda. Seja ativo, cuide de si mesmo e do que é seu, ou deixe tudo esculhambado por dias. Saia pra acampar, vá pro mato, pro campo, pra praia, ou fique na cidade ou nos arredores. Curta o frio, a chuva, ou curta o calor, o sol, ou faça tudo, cada um de uma vez ou com as combinações que se é possível. Tenha um cachorro, ou um gato, ou um passarinho, ou um cavalo, ou uma iguana, sei lá, ou não tenha nada disso. Prefira uma moto, um jipe, ou um barco, uma lancha, um caiaque. Faça natação, jogue futebol, ande de bicicleta, ou apenas caminhe de vez em quando. Ou, seja sedentário mesmo. Curta a simplicidade e sinceridade das crianças, ou não chegue nem perto delas, escute com atenção os ensinamentos dos mais velhos, ou se faça de surdo, permita-se aprender com a natureza, sim, isso você deve aprender! Tenha fé, seja devoto, seja ateu, ou não seja nada. Seja humilde, tranquilo, calmo, ou seja agitado, ansioso e voraz. Só não seja ignorante e/ou arrogante, isso não pode! Mas mantenha o respeito e a dignidade, não deixe que por trás de seu jeito de ser, de vestir e de agir molde-se um caráter volátil, uma personalidade vil. Não se torne e nem se faça uma pessoa, um ser sem princípios e sem valores, não se torne apenas uma caricatura, uma pessoa oca, vazia, um corpo sem alma. Nada pode ser pior que isso. São essas pessoas que fazem tudo perder a essência, que cada hora que passa, pelo simples fato de existirem e andarem por aí, tornam o mundo pior, bem pior! Não seja uma delas, não ande no mundo a passeio, e, se andar, tudo bem, só não faça desse passeio uma forma de exemplo. Pense melhor!

domingo, 7 de junho de 2009

Rodada

Aguarda a chamada de laço armado
Pede boi e sai cutucando o pingo
Vai ajeitando no bater de patas
Empurra o trançado antes da raia
Vai na boca pra fazer a armada
Suspende o seio cerrando a corda
Chega espora e dá rédea
Com a confiança debaixo dos arreios
É aí que lida perde a forma
A cancha se faz traiçoeira
E os dez pontos se vão embora
No aprumar da corda “véia” debochada
Perdeu as mãos a égua do patrão
E se foram os dois pro chão
Misturando pêlo, terra e arreio
Dando mostras do tamanho da confusão
De tão rápido que é o tombo
O índio velho se ajeita como pode
Pra não bater primeiro o lombo
Ou o recavém contra a barba-de-bode
Depois da embolada de homem,
Cavalo, terra, grama e arreio
A poeira cedendo espaço
Se levanta, ainda assustado da façanha
Monta de novo e sai, altaneiro
Mostrando que nessa hora
Até quem pensa que perde, ainda ganha
É coisa braba uma rodada campeira
Por mais mansa que seja
Larga o gaúcho extraviado, atordoado
Bombeando os tarecos que ali ficam
Tudo perdido, esparramado...
E o pingo, que vinha firme
Atendendo os comandos do campeiro
Sem nem ver como, se foi ao chão
Também fica zonzo, perdido
Levanta e se para ao lado, de pronto
Pra servir de novo, como antes
Mesmo tendo se machucado
Quem assiste leva um susto dos grandes
Vendo equino e campeiro
Rolando cancha a fora
Cessa a gritaria e fica o silêncio
Até verem que nada demais aconteceu
Sobrou uma mão bem dolorida
Os dois braços um pouco esfolados
E no mais, o rodeio aconteceu
Na barraca, esfriando o sangue
A canha fez às vezes de analgésico
E o carinho da parceria às de doutor
Continuou, dando ordem no boiamento
Zelando pelo refrigerador
Sendo o síndico do acampamento
Mas loguito se curou, e já andava
De trançado na mão, procurando rodeio
É assim mesmo a lida e a vida
De quem vive pela campereada
Num dia se ganha um troféu,
No outro, uma baita d’uma rodada.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Cumparsita de mi vida

Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese no sé qué, ¿viste?. Assim, como se me encontrasse nos cafés de La Boca e entre casas coloridas escuto a melodia hipnotizante. Me toma, embriaga, en un “ocho” me enobrece em um “gancho” me engancha. Efervescente, passa por cada célula e hipnotiza a alma, que dança, baila, sem sair do lugar. Balada de los locos de amor, que como diz a letra do poeta músico bailante, brilhante, con un poema y un trombón a desvelarte el corazón, te deixa assim, sem ar mas com el corazón a transbordar. Balada dos apaixonados, apaixona e consome a tristeza numa soledad porteña, correntina, cantada, romântica, intensa. Feito chama infinita enquanto dura a melodia, coloca fogo na existência. Aquece. De olhos fechados te lleva a media luz, crepúsculo interior a bailar, a llorar, y lloro de emoción oyendo un bandoneón. "¡Viva! ¡Viva!" los locos que inventaron el Amor! Viva a ti, Piazzolla, al bandoneón, al tango novo e velho, electro, de Bajofondo o Gardel, viejo de hoy y siempre, milonga de mi vivir, en Buenos Aires ou aqui. 

Lidy con alma argentina

sábado, 16 de maio de 2009

p.s: não se esqueça de viver

Bastou um filme e um fato pra aquele nó na garganta voltar. Essas coisas que nos motram o quanto a vida é efêmera mexem tudo aqui dentro. Sabe quando um temporal chega de surpresa e as janelas estão abertas? Vendaval que bate as janelas, derruba os livros, espalha os papéis pelo chão.  E então tu percebes que sim, as coisas podem mudar completamente a qualquer momento e em qualquer lugar, para qualquer pessoa, inclusive pra ti. 


A efemeridade da vida é assim, feito vendaval, que de uma hora pra outra desarruma tudo, tira tudo do lugar, te leva coisas que tu achas que não poderias viver sem. A efemeridade da vida é a certeza da perda. Ou perdemos algo, ou alguém nos perde. Não, não... não comecei esse texto pensando em combinar frases mórbidas e doloridas. O start sim, foi esse. Um fato e um filme que falam disso: da perda, culpa da efemeridade da vida. 


É que é nesses momentos que essa característica intrínseca a qualquer existência vem à tona. E então dá vontade de sair desesperadamente pela rua, cantando a música preferida, gritando para as pessoas importantes da sua vida que elas de fato são importantes, ir até o curso de dança mais próximo, matricular-se, para satisfazer aquele desejo que, até então, era só um desejo deixado de lado pelos compromissos e responsabilidades. 


É isso que esse vendaval faz comigo. Me sacode e me faz enxergar o quanto estamos cegos à nós mesmos. O quanto deixamos de lado tantas coisas que gostaríamos de fazer, de dizer, de sentir. É esse vendaval que nos traz de volta ao sentido da vida e te abre os olhos para o único fim irremediável, e te enche de gás, te encoraja a fazer tudo que queres fazer antes que esse fim chegue. 


Porque ele há de chegar, a qualquer momento. E quando isso ocorrer, não quero olhar para trás e perceber que carrego comigo frases de amor não ditas, abraços não dados, palavras caladas, desejos repreendidos. Talvez amanhã não consiga matricular-me no curso de dança que tanto quero, mas hoje, não passa de hoje, direi  ‘eu te amo’ com todas as forças para o homem que fez meus olhos voltarem a brilhar. Ligarei para aquela minha amiga de infância que em um e-mail, lido às pressas em meio ao trabalho, me confessou sua tristeza e eu nada respondi, porque me perdi nas tarefas e me deixei esquecer. 


Abraçarei com toda minha alma aquela alma irmã que encontrei na faculdade e que felizmente ainda está perto de mim. (Nos vemos quase todos os dias, mas há quantos não nos apertamos naquele abraço infinito?) Olharei para minha mãe e direi a ela o quanto ela tem razão nas coisas que diz,  e passarei a escutar as verdades que ela me fala a cada novo dia e que eu ignoro, para depois descobrir que eram realmente verdades. (É, tava frio aquela noite em que eu não levei o casaco, mãe). 


Ontem, ontem mesmo lia Álvaro de Campos (um presente que veio no diálogo com um amigo), e pensava nisso tudo... Em como há de se ter intensidade nas coisas que fazemos, nos segundos que vivemos, nos fragmentos que sentimos. Diz o poeta: “seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos, a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar pulos,de ficar no chão...”. Há quanto tempo não te permites pular? Há quanto tempo a vida não roça teus ânimos, teus nervos, eriça teus pelos? Não, não pare para pensar nesse tempo. Viva o tempo que há, enquanto o vendaval não chegar.  


o fato: a perda de um colega.

o filme: p.s: eu te amo.

Lidy

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Rodeios Crioulos

Escolhendo o melhor lugar pra acampar
Já aparecem os primeiros amigos
A alegria e o bom humor dominam o ambiente
Desdobrar lonas, firmar estacas, esticar cordas
Com sorrisos no semblante, alegria real
Descarregar o acampamento
Arrumar os leitos e catres, montar a cozinha
Lidar com o “boiamento”, em quantia
Encilhar a eguada, arrastar os laços
Dar um chego na secretaria, fazer inscrição
Conferir pilchas e arreios, deixar tudo em ordem
Semana após semana, mês após mês, ano após ano
Perfazendo o caminho de uma vida inteira
É lindo o rodeio, pela forma e pelo conteúdo
Quem vive ele, sabe bem do que falo
Famílias envolvidas inteiras
Aumentando a união e companheirismo
Convívios selados ao longo de armadas
Pulos de aporreados e berros de incentivos
Amizades firmadas pra uma vida inteira
Com gente de fundamento, de valor
Propiciadas pela atividade em comum
Pelo gosto de campereada, de xucrismo
Nesse meio, sobram mãos amigas
Braços estendidos, atitudes
De solidariedade, ajuda, parceria
Feliz quem habita o rodeio
Quem atira uma armada, aguenta um pulo
Suja a mão, o rosto, a roupa
Na poeira ou no barro d’um rodeio
Lugar onde se forjam pessoas de valor
Com respeito, seriedade, caráter
Meio de vivência em que o espaço
É ocupado por pessoas de grandeza
Que procuram lugares seguros, tranquilos
Pra aliviarem a tensão do dia-a-dia
Espairecerem, esvaziarem a cabeça
E ali encontram isso e muito mais
E é a isso que me refiro
É disso que gosto, é nisso que vivo
E peça a Deus misericordioso
Não me deixe sem, seja qual for o motivo!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Mude-se

Mudanças são sempre necessárias. Mudar rotinas, hábitos, crenças. Mudar a cor de uma parede, o quadro de lugar, o som do carro de todas as manhãs. Mudar o prato do dia, o restaurante de domingo, mudar o paladar. Gostar de coisas novas, fazer coisas novas, conhecer gente nova. Mudar o jeito de se relacionar. Mudar o valor que se dá a uma relação.

Mudar a cor do sapato, o estilo de blusa, dar um tempo para a estampa predileta, para o caminho preferido. Dar-se tempo. Mudar o rumo. Escolher um novo caminho para chegar ao mesmo lugar ou mudar o olhar. Perceber o diferente no mesmo, perceber que o mesmo pode sempre traz algo de novo. Mudar o ângulo. Mudar de foco. Surpreender(se).

Hoje mudei o corte de cabelo, e percebi o quanto toda e qualquer mudança significa um ato de coragem. Coragem de sair do mesmo, driblar o monótono, libertar-se da zona de conforto. Mudar exige tomada de atitude. É verbo no imperativo. É primeira pessoa. Ir além de onde fomos até então.

Ultrapassar a linha limítrofe. Esquecer deadlines. Mudar exige libertação. Encarar o medo, a insegurança de aquilo que pode ser, sem sabermos se, de fato, será. Mudar é ir além das hipóteses, além do que se imagina, é agir. Mudar é desafiar a si mesmo, ao que sempre foi, ao que sempre fui.

Por isso mudar pode fazer da gente muito melhor do que já somos e do que poderíamos ser, se permanecêssemos tão iguais. Mudar é nos darmos a chance de escolher. Livre arbítrio para o ser, quando se quer ser melhor. Mudar o jeito de olhar para os dias, para os outros, para si mesmo. Mudar uma mania, trocar de canal, experimentar.

Permitir-se sentir algo diferente pode depender de uma simples mudança de prioridades, ou de atitudes. Gostar de um outro jeito, demonstrar sentimentos de outra forma, amar de outra maneira, sem deixar de amar. Aliás, amar é em si, mudança. É mudar a alma de casa, já dizia o poeta.

Mudar pode trazer arrependimento, é verdade. E cabelo cresce. Ainda assim, mude-se. Mudar é risco, mas arriscar-se é, por si só, superação.

(tardo mas não falho ehehe)

bjs!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Há de se viver!

Ser um gaúcho de fato nos dias atuais transcende conceitos prontos.
Vai muito além do simples fato de usar uma bombacha, ostentar uma boina ou chapéu na cabeça,
passa mais longe ainda do fato de ter nascido no Rio Grande Amado, embora muitos teimem em achar que isso basta.
É carregar consigo e aplicar na sua vivência e rotina diária valores e princípios como honestidade, honradez, hombridade, respeito e coragem, amizade e companheirismo. É aplicar-se ao convívio e cuidado com a família, desde o primeiro ascendente até o último descendente, é manter boas relações no trabalho e convívio social. É ter sobriedade para manter-se íntegro num mundo onde todos vêem seus maiores tesouros, seus únicos bens verdadeiros irem por água abaixo, e ainda assistem suas vidas serem timoneadas conforme a vontade de alguns, ficando de braços cruzados e mãos no bolso diante disso tudo.
Canta nosso hino: “-Mostremos valor e constância nessa ímpia e injusta guerra...” E faz-se exatamente o contrário, caminha-se na contramão do que se prega, deixando as palavras cada vez mais fracas, cada vez mais sem sentido. Temos, como gaúchos de fato, que travar nossa luta diária no sentido de fincar raízes, perpetuar valores, ensinar princípios, demonstrar caráter sem perder a simplicidade e a alegria, traços marcantes de nossas origens, para, no apagar de nossas existências, termos a certeza de que estamos partindo e deixando nossa tarefa realizada da melhor maneira, pra sabermos que estamos indo com o dever cumprido.
É o que penso, é o que faço, é o que vivo!