Dizem que quando crianças se aproximam voluntariamente de adultos estranhos, é sinal que essa pessoa não é má. Ou ao menos não tem energia ruim. Creio nisso. Sempre vi e presenciei essas cenas como espectador. Até que aconteceu comigo e me deixou feliz e satisfeito. Eu estava matando um tempo numa cidadezinha do interior, deixando transcorrer o intervalo do meio dia, para voltar a faina e retomar as visitas aos clientes, em uma praça bem arborizada e limpa. No local há um banheiro público também limpo e bem cuidado. Fui até lá lavar as mãos após comer um cacho de uvas. Ao sair, um casal de pitocos, de cerca de 5-6 anos de idade me abordou pedindo que eu ajudasse a “salvar” um passarinho que estava em cima de um pilar de concreto do alambrado da quadra poliesportiva da referida praça. Fui até lá olhar, e expliquei pra eles que não poderíamos pegar no pequeno pássaro, pois ele estava lá aguardando que seus pais viessem trazer comida e cuidar deles. E colocar ele no chão colocaria ele em perigo, pois qualquer predador poderia pegá-lo. Os dois ficaram me olhando, como se estivessem matutando sobre o que eu disse, por longos quize ou vinte segundos. Depois, sorriram e disseram: Então tá bom Tio! Vamos deixar ele lá. E nisso um pássaro adulto pousa em cima do pilar e fica por lá. Aproveitei para mostrar pra eles. Que ficaram surpresos e aliviados em ver “que a mamãe do passarinho veio cuidar”. Essa pureza de criança é encantadora. Eles ficaram ali, conversando e brincando. Falavam entre eles e me incluíam na conversa e na brincadeira, mesmo eu sentado na mureta. A menininha ainda falava comigo e fazia carinho por cima da minha mão apoiada na mureta. Ficamos ali uns instantes, papeando e rindo, até que a avó os chamou. Escutei e senti o tom de severidade das palavras dela. Fiquei um pouco apreensivo com o fato. Resolvi ir até a avó trocar umas palavras e deixa-la mais tranquila. Pois, de fato, as crianças estavam próximas de um adulto estranho. Isso me ocorreu de imediato. E para tranquilizar a avó, fui lá me apresentar e dizer quem era e o que fazia ali. Também explicar o ocorrido. Ela me recebeu de forma seca e direta. Entendi seu posicionamento. Ela faz lanches na praça dessa cidade há décadas. E não estão acostumados a ver estranhos por lá. Cidade tem cerca de três mil habitantes, sendo que algo em torno de 40% da população vive no interior. Ou seja, todos se conhecem. Enfim, após quebrar o gelo e a resistência da avó, conversamos brevemente, comentei que tinha também um casal de filhos, porém eram mais velhos. E que os netos haviam me abordado pedindo ajuda para salvar um passarinho. Depois de tudo explicado, até um sorriso recebi, como forma de desculpa e aceite de minha presença. Fato, é que isso mudou meu dia e minha energia. Esses pitocos me fizeram um bem que nem imaginam. Que os anjinhos da guarda amparem e conduzam vocês sempre, meus queridos, para serem adultos do bem e direitos!